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Capital da Beira Baixa em Dois Dias

Capital da Beira Baixa em dois dias

Já foi romana e árabe, e no tempo de D. Sancho I chamava-se Cardosa. Em 1214 D. Afonso II doou parte das terras à Ordem dos Templários que lhe mudaram o nome para o actual ali construindo um castelo e uma vila, que ficou cidade aquando da criação da diocese de Castelo Branco. Em finais do século XIX foi extinta a diocese, mas nessa altura já a cidade tinha consolidado a função que a consagrou como capital da Beira Baixa.

Paula Oliveira Silva 12 Set. 2001

A partida faz-se da Alameda da Liberdade, que é o centro da cidade. A norte, situa-se o Palácio dos Viscondes de Oleiros, actual sede de Município. A fachada é ao estilo italiano, sobressaindo o balcão tão característico em terras beirãs.

À sua esquerda, um outro Palácio, desta feita dos Viscondes de Portalegre. É actualmente Governo Civil. Do século XVI é em estilo renascentista, tão usual nesta altura.

Por sua vez, à esquerda deste último edifício, encontra-se o Palácio da Justiça. Na sala de audiências aprecie o painel, obra do pintor Martins Barata. Repare também no vitral da escadaria. Trata-se de uma obra dos anos 40 do século passado.
Em frente, o jardim central, domina a Alameda. É aí que se encontra a Estátua de Amato Lusitano, um judeu perseguido pela inquisição e exilado na vizinha Espanha. Seu autor foi uma figura bastante importante na terra, chamava-se Martins Correia.

Do outro lado da Alameda fica a Filial da Caixa Geral de Depósitos, de arquitectura estado-novista, típica dos anos 40. O projecto ficou a cargo do arquitecto Cristino da Silva.

Siga em direcção à Rua Sidónio Pais, onde, do lado esquerdo encontra uma outra filial, desta feita do Banco de Portugal. Trata-se de um edifício do final do século XIX, de autoria do arquitecto Salles Viana, em estilo revivalista.

Depois é só seguir em frente até à Sé Catedral.

Os templos religiosos da cidade não ostentam grandes riquezas. Uma razão que pode explicar tal situação é o facto de Castelo Branco ter sido episcopado apenas durante um século, ficando entre as dioceses de Portalegre e Guarda, mais ricas do que a de Castelo Branco. E a própria Igreja também não beneficiou de grandes dádivas por parte da nobreza local, com uma presença pouco significativa por aqui.

A Catedral foi construída sobre um outro templo de características mais simples: a igreja de S. Miguel. O Bispo D. Martins de Melo, ao mandar reconstruir a Sé, viu-se obrigado a pagar grande parte do custo da obra. O estilo que a caracteriza é o barroco, possuindo, porém, algumas marcas bem visíveis do rocócó na obra mandada realizar cem anos mais tarde pelo Bispo D. Vicente Ferrer da Rocha – a sacristia grande. Este espaço é o feliz albergador de peças de arte sacra, pratas e uma colecção de paramentos do século XVIII, decorados com os bordados característicos da cidade. Repare ainda no portal de entrada da sacristia, possuidor de um frontão com a pedra das armas episcopais.

Seguindo pelas ruas das Olarias e Bartolomeu da Costa, encontra o Cruzeiro de S. João. Construído em granito, a decoração é vegetalista, apresentando ainda uma Cruz de Cristo. É do século XVI.

Logo a seguir do seu lado esquerdo, está o Jardim do Paço, ex-libris da cidade. Mas para lá chegar terá de passar por baixo do Arco do Passadiço, antiga ligação que unia o jardim às hortas do Paço Episcopal, actual Jardim Público. Este é outro espaço de lazer indicado também para as crianças já que possui um parque de diversões e um parque de merendas, bem como diversas sombras ideais para os dias de maior calor.

Mandou construir o Jardim do Paço Episcopal, o Bispo da Diocese da Guarda, D. João de Mendonça, corria o século XVIII. Foi posteriormente terminado por D. Vicente Ferrer da Rocha, Bispo de Castelo Branco, no período em que a cidade foi sede episcopal – 1771-1881. Harmonioso espaço em que se alia a arte da jardinagem à arte de trabalhar a pedra da região, o granito, matéria-prima das estátuas do jardim. Ao gosto barroco, a água é outro dos elementos utilizados na decoração. Tome atenção aos desníveis de terreno propositadamente elaborados para a edificação de quedas de água. Outro motivo de interesse são as escadarias contendo estátuas dos reis de Portugal ou dos Apóstolos. Outros temas abordados pela estatuária são os Continentes, os signos do zodíaco, bem como figuras mitológicas.

Ao lado do jardim está o Paço Episcopal, actual Museu Tavares Proença Júnior. Este palácio era a residência de Inverno do Bispado de Castelo Branco e terá sido construído no século XVII. Preste atenção ao alpendre, escadaria e porta férrea com entrada para o pátio. As janelas de sacada com ferro merecem também alguma atenção. Aqui se instalou Junot, em 1807, aquando da I Invasão Francesa assenhorando-se de peças muito valiosas que existiam no paço. Actualmente, o acervo baseia-se na colecção arqueológica de Francisco Tavares Proença Júnior e nalgumas das peças recuperadas do antigo paço, relativas essencialmente a pintura. A exposição permanente conta a história do bispado de Castelo Branco e como não poderia deixar de ser, a história das tradicionais colchas de Castelo Branco, bordadas à mão pelas moças casadoiras. Ainda no museu poderá visitar a Oficina-Escola de Bordados e apreciar o fazer de uma colcha pelas bordadeiras que aí se encontram.

Junto ao Paço situa-se o Convento da Graça, uma construção de setecentos e a Igreja, seiscentista que veio a sofrer alterações profundas ao longo dos séculos. O Convento abrigou várias ordens religiosas tais como os Franciscanos, os agostinhos e posteriormente os gracianos, que lhe vieram emprestar o nome. Após extinção das ordens religiosas, o Convento foi cedido à Santa Casa da Misericórdia da cidade. De mosteiro passou a hospital até 1977. Porém, o espaço tornou-se pequeno, mudando de instalações e passando a existir aí um lar de idosos, um infantário e um centro de medicina de reabilitação.

Assim, apenas poderá ver a escadaria e o claustro, bem como o Museu de Arte Sacra e a capela, construída em 1519 por desejo escrito em testamento do primeiro Capitão de Goa, D. Rodrigo Rebelo. Diz-se que o dinheiro que deixou à sua irmã para os gastos de construção do convento e da igreja foi gasto no casamento das suas filhas apenas sobrando dinheiro para a edificação do templo. Da reconstrução levada a cabo na igreja em oitocentos, apenas resta o portal manuelino. Aprecie o órgão e altar-mor.

O Museu de Arte Sacra Domingos dos Santos Pio, anexo à Igreja da Graça, possui 235 peças dos séculos XVI ao século XX, albergando esculturas, pinturas, têxteis e livros litúrgicos. São de destacar alguns trabalhos pouco comuns como uma figura da Rainha Santa Isabel abraçando um pobre ou um Cristo, de madeira pintada, com feições orientais do século XVIII. Outra peça digna de interesse é a Virgem com o Menino, em pedra de Ançã da Escola de Coimbra do século XVI.

O próximo destino é o castelo. Para ir até lá vá pelas Ruas Alfredo Mota e do Forno do Tostão. Logo aí encontra a entrada do Miradouro de Gens, com uma vista esplêndida sobre a cidade. Para ir até às ruínas do Castelo, continue a subir. Aí a vista é bem mais ampla, conseguindo ver toda a cidade e arredores bem como a Serra da Estrela.

As origens do Castelo permanecem obscuras. Há quem defenda que o castelo foi mandado construir pelos templários e outros por D. Dinis.

Da antiga Alcáçova chegou até nós uma torre e uma muralha que liga à torre de menagem do antigo Palácio dos Comendadores, um edifício do século XVI, que na sua origem terá sido um paço templário. Do castelo resta um pano de muralha com prolongamento pelo burgo medieval e uma torre defensiva com ameias e duas janelas manuelinas.
Ainda aí, a Igreja de Santa Maria do Castelo. É uma pena que esteja sempre fechada.

Volte a descer até apanhar a Rua do Mercado, seguindo-se a Rua do Arresário. Depois tome a Rua dos Peleteiros e preste atenção aos portais quinhentistas bastante abundantes no burgo medieval, em especial o número 42, chamado de Porta do Alfaiate por se encontrar gravado no granito uma tesoura. A apreciar pela quantidade de portais quinhentistas da cidade, parece que em Castelo Branco abundavam as oficinas. O nome das ruas só vem confirmar essa suspeita: rua dos Lagares, do sobreiro, dos oleiros, do mercado…

Em seguida apanhe a Rua da Misericórdia para visitar a Igreja de Santo António, também chamada de Misericórdia Velha. Por se situar numa rua estreita, torna-se difícil a visão da fachada, mesmo assim atente na imagem de Santa Isabel em granito. Construída em seiscentos, foi a primeira sede da Misericórdia na cidade. No interior, destaque para o tecto de madeira pintado e para as pinturas. O altar da capela-mor é de talha dourada.

Volte para trás e apanhe a Rua Arco do Bispo. Aí encontra-se o Palácio dos Cardosos. De cantaria granítica ao estilo barroco é considerado um dos mais belos palácios da cidade. De dois pisos, apresenta sete janelas na fachada principal. O brasão da família ainda aí se encontra.

Atravesse o Arco do Bispo, para chegar à Praça Velha, actual Praça Camões, centro do burgo medieval a partir do século XV. Aí um conjunto de edifícios de grande valor, a começar pela Casa do Arco do Bispo. Aqui teria existido uma das portas da cidade, a Porta do Pelame. Uma torre rectangular pode ser observada sobre o arco. Repare com atenção.

A Domus Municipalis, é uma obra do século XVI, que foi sendo reconstruída ao longo dos tempos, descaracterizando o edifício original. Atente na escadaria e no balcão. Na fachada encontram-se uma esfera armilar, as armas de D. Manuel e uma pedra com inscrição em latim de 1646 referindo o facto de D. João IV ter entregue a protecção do reino à Imaculada Conceição. Aí se encontra um campanário, hoje sem sino, que denunciava as horas de fecho das portas do burgo.

Ao lado, o antigo Celeiro quinhentista da Ordem de Cristo, actualmente reconvertido em restaurante. Sobre o portal existem dois baixos-relevos: uma cruz de Cristo e uma esfera armilar.

Em frente à Domus Municipalis, está o Palácio dos Motas, uma construção oitocentista que nos dias de hoje empresta as instalações ao Arquivo Distrital. Repare na fachada de linhas sóbrias.

Desça pela Rua do Relógio. É aqui que se situa a Torre do Relógio, que com certeza avistou diversas vezes de vários pontos da cidade.
No final da rua, o edifício que faz frente com a Rua João C. Abrunhosa é a antiga Casa do Barão de Castelo Novo, construída no século XVIII.
Em seguida apanhe a Rua Rei D. Dinis, uma via pedonal com comércio de ambos os lados e ao fundo é já a Alameda da Liberdade, local de início deste percurso.

No segundo dia de passeio, a sugestão é Idanha-a-Nova, sede de reinado e bispado visigótico com o nome de Egitânia, corria o século V. Anteriormente ali se estabeleceram os romanos, dando-lhe o nome de Civitas Egaedinatorum, elevada a cidade a mando de Vespasiano. São deste tempo as muralhas e a ponte sobre o rio Ponsul. Os árabes, mais tardios mudaram-lhe o nome para Exitânia, arrasando a cidade após a sua passagem.

O percurso por Idanha-a-Nova começa na Capela do Espírito Santo, antigo museu epigráfico. Mais à frente, estão as ruínas da porta norte, onde se fazem escavações arqueológicas.

Corte à esquerda. Essa rua levá-lo-á a um largo onde se encontra um Pelourinho Manuelino e uma Casa com a inscrição da Ordem de cristo, detentora de uma porta manuelina. Repare com atenção nestes pormenores.

Daqui vê-se a Catedral, uma construção rectangular de granito, de onde se conservam seis portas. Ao lado do templo, entre este e a muralha, encontram-se ruínas de uma construção de vários compartimentos que se pensa ser a antiga habitação episcopal do tempo visigótico.

A catedral alberga uma das mais numerosas colecções epigráficas de Portugal, mais de uma centena de lápides datadas desde o século I a. C. Do tempo da sua edificação, apenas chegou até aos nossos dias o baptistério, datado dos séculos VI-VII. Posteriormente, os árabes reutilizaram o templo como mesquita. Outra remodelação no edifício procedeu-se no reinado de D. Manuel I, facto bem visível se atentarmos na fachada que dá para as ruínas arqueológicas. O portal manuelino aí existente apresenta um Cristo crucificado e por baixo a esfera armilar e um escudo com as quinas. Outra intervenção efectuada nesta altura foi os frescos pintados na parede, de que ainda hoje existem vestígios. O interior do templo serviu de cemitério da população.

Saindo da catedral, desça a rua até ao rio e em seguida atravesse a Ponte Romana, alvo de remodelações que lhe vieram a alterar muito do original. Foi construída no século I e servia a estrada que vinha de Mérida para Conímbriga e Viseu.
Atravesse a ponte, suba pela Rua do Espírito Santo, onde do lado esquerdo, avistará mais escavações e uma torre encostada à muralha. Mais à frente, encontra-se a Capela de S. Dâmaso, maneirista, edificada em 1748 em honra do Papa que lhe emprestou o nome. Diz-se que esta era a sua terra natal.

Passe novamente através da ponte e dirija-se à Porta Sul para visitar a Igreja Matriz, que se encontra um pouco acima e logo à direita.

Suba depois pela Rua do Castelo e encontrará a Torre de Menagem, uma fortaleza mandada edificar pelos templários e que viria a ser residência do Comendador da Ordem de Cristo. Estudos sobre o edifício vieram confirmar que se encontra assente sobre um templo romano dedicado a Vénus.

O passeio terminou, mas antes de partir aproveite para admirar esta paisagem tão típica. Seguramente que não lhe sairá tão cedo da lembrança

Paula Oliveira Silva
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